5 de abril de 2011

Me faça viver no seu passado

Autora: Pri Santos
Sempre que podia, ía aquele jardim. Gostava de colocar os pés descalços na grama verde e sentir seu frescor. Era calmo e tranquilo, somente eu e meus pensamentos ali, longe da rotina estressante. Sentei a fim de observar os pássaros, o céu azul, mesmo que o sol me obrigasse a colocar as mãos sobre os olhos. Procurei então uma árvore, e logo encontrei, pois ali tinha várias. Eu adorava a sensação de estar livre de tudo e todos. As vezes trazia meu violão e cantava as minhas música preferidas. Outras vezes, trazia um livro e ficava perdida nos acontecimentos que absorviam minha atenção. Mas hoje quis apenas relaxar, e respirar aquela tranquilidade presente naquele lugar. Sem perceber, dormi e por várias horas. Não acordei sozinha, alguém me chamava, um pouco longe, após alguns segundos mais perto, e quando abri os olhos encontrei outros só que mais escuros. Observando-me,  perguntou se eu estava bem. Era tarde, e já não se ouvia nenhum barulho. Eu me sentei um pouco sonolenta, peguei minha mochila e me ajudando a levantar, se apresentou, então soube que ele acabara de mudar por ali, e tinha vindo conhecer o jardim. De imediato, me senti um pouco incomodada porque a idéia de compartilhar o tempo em que gostava de ficar comigo seria um pouco estranho. Mas, após pensar, não faria mal conhecer alguém novo, e a companhia dele me parecia me fazer bem. Me apresentei de maneira que parecesse normal, pois estava um pouco entusiasmada. Nós dois gostavamos de lugares calmos, então a partir dali, eu dividiria meu espaço com ele.
Os encontros passaram a ter dias da semana definidos, e as conversas se tornavam cada vez mais agradáveis. Nos conhecíamos cada vez mais.  Era bom saber que assim como eu, alguém encontrava inspiração naquele lugar, quando ninguém mais o fizera. Tanto as flores murchas quanto as vivas, davam um ar de equilibrio a ele. E a companhia dele também me fazia ter vontade de ir visita-lo, mesmo que não estivesse tão disposta, assim percebi que com o passar do tempo, eu já não ía ao jardim pela tranquilidade, e sim para vê-lo.
Numa certa vez, ele não apareceu, mesmo que já tivessemos combinado. Prometi finalmente cantar uma música, e assim, saber se ele também achava minha voz bonita. Entretanto, ele não apareceu. Somente eu e o meu violão, naquele imenso verde, o silêncio me atormentava, pois ele não existia quando estavamos juntos. Sempre tive medo de dizer que gostava dele, tinha medo de ter misturado as coisas e de acabar me envolvendo de mais, só que era tarde, porque eu estava sentindo algo muito mais do que amizade. E aquele dia, foi quando confirmei. 
Na outra vez, ele apareceu, mas com alguém, aliás uma garota, dizendo que era sua namorada, e que no dia em que não tinha vindo, era porque ela tinha acabado de chegar de viagem. Me senti como aquela flor murcha, que eu tanto olhava, e imaginava como era ruim ser algo sem vida, sem cor. Naquele momento não me senti mais do que ela, e sim igual. Tive vontade de chorar, mas aguentei firme, inventei uma desculpa, dizendo que tinha que chegar mais cedo em casa. E eu saí, andando pela calçada, sem nem ao menos perceber o que ocorria em volta de mim. Aquelas poucas quadras se tornaram uma caminhada sem fim, e a tristeza que eu sentia, também. Ao chegar em casa, refugiei em minha cama, desabafando em meu travesseiro toda a minha dor. Como era ruim, não ser correspondida. Eu tinha planejado tanto aquele momento, e a música, não seria somente pra mostrar meu dom, e sim o que sentia. Compus quando sentia sua falta, e nela, tinha os versos mais singelos de um amor nascido de simples encontros em um jardim. O jardim, mesmo não tendo culpa, foi o cenário da minha decepção amorosa, logo, não quis mais voltar a visita-lo.
Dias se passaram, e ligações deles para mim foram feitas, as mesmas perguntas respondidas com as minhas inúteis desculpas. Ouvir sua voz, me fazia ter raiva, mas ao mesmo tempo, uma imensa mágoa. Queria poder ve-lo, nem que fosse uma ultima vez, e dizer o que eu sentia, para me sentir aliviada e poder voltar pra casa em paz, mas não era fácil. Até que um dia, eu resolvi ir ao jardim, mas sem que ele soubesse. Fui em outro dia, sabia que naquele dia ele não iria. 
Levei meu violão, e sentada embaixo da arvore que eu mais gostava, cantei a musica que fiz pra ele. Foi estranho, lembrava da cena que tanto me estristeceu, mas ao mesmo tempo, me fazia sentir-se melhor. Descobri que aprendi a deixar de gosta-lo, e que estava fazendo as pazes com aquele cenário. Enquanto cantava, minha melodia me renovava, e dela um novo desfecho foi criado. Quando as lágrimas se cessaram, um novo sorriso surgiu, avistado por ele. Não tinha percebido que estava ali, e estava desde que eu comecei a cantar. Ve-lo já nao me pertubava mais, era apenas um encontro casual e nada mais. Ele nunca tinha entendido o porque de eu não querer mais vir ao jardim como faziamos, e sabia que as justificativas não eram reais, e sim desculpas mal formuladas. Havia percebido que fiquei um pouco pertubada pelo fato de ter trazido sua namorada naquele dia.  E afirmando que sim, que na verdade tinha me magoado profundamente, declarei que o amava, não tinha me dito que namorava. A música, que ele acabara de ouvir era pra ele, e se o visse de novo após aquilo, talvez não voltaria mais a esse lugar. A expressão de surpresa em seu rosto, pode ser vista claramente. Olhando pra mim, afirmou que não estava mais namorando, terminara o namoro, quando descobriu que também me amava, e após aquele dia, quando vinha ao jardim, sentia minha falta, e não encontrava mais graça nele. Nas muitas vezes que me ligou, era pra dizer o que sentia e pedir desculpas por ter me magoado. Compreendendo, com um sentimento de perda, mas com palavras verdadeiras eu disse que nao me restava nenhuma mágoa. Demorou, mas eu consegui superar, e agora já não amava mais. O meu amor foi verdadeiro, mas ficou no passado. Aprendi a deixa-lo vivo somente nas minhas memórias. O jardim, continuará sendo meu lugar preferido, pois nele estara uma parte de minhas lembranças. Não o visitarei mais com frequencia, mas sei que quando quiser uma musica nova, ele seria o lugar certo pra me inspirar. 
Deixando escapar uma lágrima, ele pediu desculpas, desejou que eu fosse feliz, e prometeu guardar aquela música, pois ela o faria lembrar-se de mim "acho que foi tarde demais, pra te ter, mas não pra dizer o que sinto, me faça viver no seu passado". Fiz um sinal que sim, me despedi, e disse adeus. As mesmas ruas que andei chorando, pude sorrir, e agora havia voltade a ser uma daquelas flores vivas novamente, só que mais bonita, pois apesar de tudo, eu aprendi, e ganhei uma nova cor. 

0 comentários:

Postar um comentário

 
Design by Wordpress Theme | Bloggerized by Free Blogger Templates | free samples without surveys