21 de janeiro de 2011

Toque dos meus pés

Autora: Pri Santos

Eu sempre quis ser uma bailarina, mas nunca pude. Meu pai era contra a esse meu desejo, achava que eu não deveria perder tempo com dança. Eu gostava de assistir aos espetáculos que passavam na televisão, até arriscava alguns passos quando estava me meu quarto. Somente isso que eu conseguia, sonhava em um dia poder colocar uma sapatilha nos pés, e sair girando e girando com toda aquela pureza que uma bailariana tem. Tocar o chão somente com as pontas dos pés, sentir meu corpo sendo levado pelo ar que me circula. Seria ótimo ! Mas não posso.
Todos os dias, quando volto da escola, após ajudar em casa, faço minhas lições, também meus desenhos. Sempre são bailarinas, não me canso de desenha-las. Um dia meu pai encontrou, na mesma hora tomou-os da minha mãos, e perguntou o que aquilo significava. Eu disse apenas, que aquilo significava o sonho da minha vida. Ele se calou, porém rasgou-os e jogou-os ao vento, e eu via-os sendo arrastados para longe de mim. O meu sonho, sendo levado, meus unicos momentos de felicidade, onde eu poderia chegar ao máximo de ser uma bailarina. Em desespero, sai correndo, esquecendo-me da sacada, e que havia muitos metros abaixo de mim. Meu pai tentou me segurar, chorando, mas não conseguiu. Eu caí, e não vi mais nada. Quando acordei, estava em um quarto claro. Ouvia vozes um pouco longe. A porta se abriu, era o médico, entrou sério e quando olhou para mim, deu um leve sorriso, após disse que tive muita sorte, sai praticamente ilesa, apenas com alguns arranhões. Eu ainda estava um pouco zonza, não conseguia me recordar de tudo. Ele me explicou o que tinha acontecido, desde o começo. Eu consegui ter uns lapsos de memória, e na hora fiz uma cara de espanto, lembrei de quando cai, e uma mão em torno de mim, estranho, me recordo de ter visto meu pai lá em cima, ainda na sacada, quando senti que estava caindo. Perguntei do meu pai, e o médico fez uma expressão de piedade. Eu perguntei o que tinha acontecido novamente. E ele disse, que quando meu pai viu que eu ía cair, correu e me abraçou, querendo me proteger, fez com que eu caísse em cima dele, e assim eu não tive nenhum dano. A batida não foi forte para mim, mas para meu pai sim, apesar de uma altura de dois andares, podendo ter apenas algum osso fraturado, ele bateu a cabeça, assim teve de imediato morte cerebral.
No momento não pude me conter, e as lágrimas desciam em meu rosto, sem poder para-las. Tudo perdeu o sentido. Não foi fácil, esquecer a morte de meu pai, e nunca será. Ele sempre foi contra ao meu sonho de ser bailarina, mas acho que era porque queria que eu tivesse um futuro com uma profissão mais comprometedora, não porque odiava a idéia de eu dançar. Hoje, eu faço aulas de balé, aos finais de semana, apenas por hobby, e sou desenhista de roupas. Descobri que meu talento não era apenas desenhar roupas de bailarinas, e sim qualquer roupa. Dedico-me muito e através dessa profissão ganho suficientemente bem. Como não tinha irmãos, apenas meu pai e eu. Vendi a casa, e hoje moro em um apartamento. As lembranças eram fortes demais pra mim naquela sacada. Agora, em frente ao tumulo do meu pai, após contar os acontecimentos de meu dia, despeço-me dele, da maneira que sempre sonhei em um dia me apresentar, não sei se ele esta sorrindo, mas mesmo assim danço com minhas sapatilhas, girando ao vento, tocando o chão com a ponta dos meus pés. Acredito que com minha dança, nessas ruas de mortos, trago um pouco do que é viver intensamente, pois alcancei o meu sonho.

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