28 de outubro de 2010

Dor Mútua


Autora : Pri. Santos
Faltava pouco para o amanhecer, eu ainda estava intacta, recuperando-se do sonho que acabara de ter. Segundos cruéis, na qual eu queria apagar de minha mente.
Minha melhor amiga morrendo, por algo que eu também podia sentir. Uma dor incançavel, mas que eu não sabia o que era e não pude ajudar a cessa-la.
Na escola, enquanto comiamos nosso lanche, Felipe contava sobre sua fantasia, para umas das melhores festas do ano que iria acontecer no mes de outubro.
Era Halloween. Eu e Heloíse, iriamos sem falta. Eu iria de Bruxinha, e ela de Noiva Cadáver, como sempre. Sempre fomos juntas a todas as festas, mesmo quando arranjávamos nossas paqueras, sempre estavamos uma ao lado da outra, e foi por essa cumplicidade que eu fiquei a manhã inteira, fitando-a e lembrando daquele pesadelo que tivera na noite passada. Demorava-me a acreditar que ela morreria, e eu ali, passando pela mesma dor, não sabia o que fazer. Diversas vezes em que a olhava ela percebia, e perguntava :
_ Que foi Nathali, aconteceu alguma coisa, já á décima vez que voce fica me olhando com essa cara de espanto, garota!
_ Não, nada não. Acho que estava imaginando voce fantasiada !
_ Pois cuidado, que ficarei pior que o que voce imaginou !! - Ela caiu em gargalhadas
Eu sabia que não era por isso, mas tentei disfarçar. Não sabia se contava para ela, ou a pouparia de ficar o resto do dia, pensando em seus ultimos momentos de vida.
Creio que só foi um sonho, nunca fui boa em premonições. Decidi esquecer, e me ocupar com a minha fantasia, que estava ficando ótima, a maquiagem completaria todo o visual, e como sempre, com certeza receberia elogios.
Mais uma vez o sonho se repetiu, nessa vez eu via vultos e Nathali sendo cortada. Seu sangue jorrava involuntariamente, e eu sentia um dor abominável no mesmo lugar onde ela fora machucada. Como era horrível, tentava me aproximar dela mas ao contrario eu ía para outra direção. Mas porque eu não tinha o sangue escorrendo em minhas mãos como ela ! Procurava em mim, evidencias de sangramento, mas não encontrava, apenas um corte. Droga, o que estava acontecendo, por que esse sonho não me deixa em paz ! Porque eu tenho que assistir a tudo isso e porque eu não consigo ajuda-la!
_ Me solta, me solta !
_ Calma filha, sou eu sua mãe, voce estava gritando e eu vim ver o que era, teve um sonho ruim foi ?
_ Sim mãe, sim. - Percebi que estava suando, e que minha respiração estava ofegante - Mãe, vou lavar o rosto, tenho que ir pra escola.
_ Tah filha, mas voce esta bem ? Se quiser não precisa ir hoje.
_ Tô bem mãe, tô bem, foi só um sonho.
Um sonho que me parecera muito real, sua voz, seus olhos. Heloíse estava como sempre foi, até mesmo seu batom rosa escuro estava presente, logicamente depois sendo tranformado em vermelho. Fiquei a manhã inteira abalada, mas fiz o possivel pra que ela não percebesse. Na ultima aula, coincidentemente, fora passado um filme sobre premonições. Nunca me interessei por isso, e nunca acreditei, coisas que vão acontecer no futuro sempre vindas de sonhos, sempre óbvias, me perguntava porque ninguem não encontrava outra maneira de se prever algo que vai acontecer. Agora sei porque, nos sonhos você é vunerável, você se prende em um mundo que ninguém pode te ajudar. Seus medos, vergonhas, aparecem como mágica, e mais uma vez te mostram o que você realmente é. Mexem com a sua mente, te dominam. Era assim que eu me sentia, uma inutil que não podia salvar sua amiga, vunerável ao medo de perdê-la. Estava presa num lugar que só eu conhecia, mas que o propósito que ele queria me mostrar desconhecia.
O dia da festa chegou, e eu estava atônita, minha roupa estava sensacional, e a da Heloíse também. Mesmo com aquele pressentimento ruim, eu decidi ir a festa para me distrair e esquecer daqueles sonhos terríveis. Felipe estava super animado, sua namorada, a Aline, também estava na festa. Ela usava uma fantasia de Fada. Achei engraçado, pois era o oposto da fantasia maléfica de vampiro de seu namorado. Heloíse e eu, fomos pegar um ponche, quando ouvimos uma música agitada começar a tocar. Logo, todo o pessoal estava na pista de dança, aproveitando o máximo criando passos que surgiam ao ritmo do corpo e da música. Heloíse quis dançar, mas eu ainda estava terminando de colocar a bebida no copo, quando de repente, as luzes se apagaram. Todo mundo deu um grito, mas só por zoação, achavam que aquilo era um efeito especial, ou até mesmo um problema que logo seria reparado. Cinco minutos passados, e comecei a ouvir gritos, dessa vez de medo, terror. Vi vultos passando mas imaginei ser de fantasias de andavam por ali. Mas não era, o tempo passava e mais gritos, tapei os ouvidos e em desespero chamei por Heloíse, ela não me respondeu, olhei para os lados em vão, tudo escuro, barulho de coisas sendo caídas, pessoas correndo procurando uma saída. Os vultos continuavam a vagar, lentos, parecendo não estarem com pressa, um deles estava indo em direção a mesa do meu lado, foi aí que vi Heloíse, na pressa ela deve ter se escondido debaixo da mesa, mas fora arrancada violentamente, sendo puxada pra cima, batendo a cabeça na mesa que fora derrubada. Eu saí correndo em sua direção. Que vulto era aquele, eram pessoas ? Assassinos? Hesitei um pouco, fiquei com medo. Corri novamente, dessa vez ela estava se debatendo, parecendo estar presa. Naquele momento sua maquiagem criara vida. Gritava por mim, foi quando eu não pensei mais em parar, queria ajuda-la. Nesse momento, também senti algo me agarrando, uma força tremenda, eu também me debatia, querendo me soltar, senti algo atravessando meu estômago e desmaiei. Quando voltei em si, uma dor me incomodava, via Heloíse com um corte profundo no mesmo lugar onde eu fora atingida, ela gritava de dor, com as mãos tentando tapar o ferimento. Quis correr ao seu encalço, mas não pude, era como se estivesse longe dela, chamava-a mas parecia que ela não conseguia me ouvir, senti novamente algo me puxando, e dessa vez mais forte, até que a dor que eu estava sentindo parou. Vi um corte em minha barriga e passei as mãos, mas não havia sangue, não havia dor, não havia corpo ! Olhei para os lados todos estavam mortos, avistei Heloíse mas agora apenas pedindo por ajuda, mas perto dela visualisei meu corpo, o meu corpo, sangrando sem parar, pálido e sem vida. Tentava correr para ajuda-la mas não conseguia não me movia em sua direção, sim para outra. Nesse momento descobri porque não conseguia, minha alma estava sendo levada, meu corpo já não me pertencia, a dor que sentia junto com Heloíse, era da cicatriz que pude compartilhar enquanto estava viva, e o desespero de não poder alcança-la era de não saber do fato de que já não estava mais ali. Os sonhos nos mostram algo, cabe a nós interpretá-los, talvez se ainda pudesse sentir emoções, ficaria feliz por ver que a alma de minha melhor amiga ainda repousava junto a ela.

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